Foi em setembro, sete anos atrás. Nas piores circunstâncias
possíveis eu saí da casa que, apenas alguns dias antes, tinha deixado de
ser a casa dos meus pais, para se tornar a casa do meu pai.
Eu
tinha várias explicações para a mudança de Florianópolis para São
Paulo: desde os seis anos de idade eu queria voltar para cá; minha melhor
amiga morava em São Paulo, e nós planejávamos morar juntas há anos; eu
já estava fazendo um curso em São Paulo, e tinha contatos profissionais
aqui. Apesar de nada disso ser falso, o motivo era, na verdade, muito
mais simples e dolorido. Eu não aguentaria morar na casa onde minha mãe
não vivia mais. Eu não aguentaria ficar na cidade onde ela tinha
morrido.
Decidir sair de São Paulo é estranho, e eu tenho
novamente várias explicações: eu gosto de SP; conheci pessoas incríveis
aqui; viver em SP durante esses sete anos me ensinou muito sobre mim mesma,
sobre luto, sobre amizades; em que outro lugar do mundo você pode
simplesmente decidir jantar às três da manhã e ainda ter infinitas
opções de cardápio? O motivo, dessa vez, é um pouco menos simples mas
igualmente dolorido. É difícil deixar para trás a última decisão que
tomei na minha vida com a participação da minha mãe. A geladeira que
minha amiga e eu compramos para o nosso antigo apartamento foi a última
coisa que contei para a minha mãe sobre mim.
Mas é agora, de novo
em setembro, com absoluta paz no coração, que eu deixo São Paulo para
viver uma nova fase, na Inglaterra. Deixo a loucura desta metrópole para
morar em uma cidadezinha onde se respira ar puro. Minha motivação para a
mudança, desta vez, não é dolorida: vou porque estou feliz, porque amo e
sou amada, porque estou sendo recebida por uma família incrível que
muito em breve se unirá à minha.
Minha mãe e eu tínhamos um mundo
à parte, só nosso. Minhas memórias disso tudo vão e voltam, mas algumas
são bem claras. Quando eu era mais nova, sempre imaginávamos meu
futuro, e por algum motivo que ela nunca me explicou, ela parecia estar
convencida de que eu iria morar em outro país, e me casar com um
estrangeiro. Então acho que tudo bem eu pensar que, de alguma forma que
não entendo, ela também participou desta decisão que tomo agora.

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