Wednesday, September 30, 2020

setembro.

Foi em setembro, sete anos atrás. Nas piores circunstâncias possíveis eu saí da casa que, apenas alguns dias antes, tinha deixado de ser a casa dos meus pais, para se tornar a casa do meu pai.

Eu tinha várias explicações para a mudança de Florianópolis para São Paulo: desde os seis anos de idade eu queria voltar para cá; minha melhor amiga morava em São Paulo, e nós planejávamos morar juntas há anos; eu já estava fazendo um curso em São Paulo, e tinha contatos profissionais aqui. Apesar de nada disso ser falso, o motivo era, na verdade, muito mais simples e dolorido. Eu não aguentaria morar na casa onde minha mãe não vivia mais. Eu não aguentaria ficar na cidade onde ela tinha morrido.



Decidir sair de São Paulo é estranho, e eu tenho novamente várias explicações: eu gosto de SP; conheci pessoas incríveis aqui; viver em SP durante esses sete anos me ensinou muito sobre mim mesma, sobre luto, sobre amizades; em que outro lugar do mundo você pode simplesmente decidir jantar às três da manhã e ainda ter infinitas opções de cardápio? O motivo, dessa vez, é um pouco menos simples mas igualmente dolorido. É difícil deixar para trás a última decisão que tomei na minha vida com a participação da minha mãe. A geladeira que minha amiga e eu compramos para o nosso antigo apartamento foi a última coisa que contei para a minha mãe sobre mim.

Mas é agora, de novo em setembro, com absoluta paz no coração, que eu deixo São Paulo para viver uma nova fase, na Inglaterra. Deixo a loucura desta metrópole para morar em uma cidadezinha onde se respira ar puro. Minha motivação para a mudança, desta vez, não é dolorida: vou porque estou feliz, porque amo e sou amada, porque estou sendo recebida por uma família incrível que muito em breve se unirá à minha.

Minha mãe e eu tínhamos um mundo à parte, só nosso. Minhas memórias disso tudo vão e voltam, mas algumas são bem claras. Quando eu era mais nova, sempre imaginávamos meu futuro, e por algum motivo que ela nunca me explicou, ela parecia estar convencida de que eu iria morar em outro país, e me casar com um estrangeiro. Então acho que tudo bem eu pensar que, de alguma forma que não entendo, ela também participou desta decisão que tomo agora.

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